Poesia de Karen David.
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Quando eu morrer,
quero que o meu testamento
seja lido na presença do meu pai.
Não toquem em nada,
deixem tudo pra ele.
Tudo que eu conquistei,
tudo que eu me tornei.
Eu deixo pra você, pai.
Eu deixo pra você,
a minha medalha de campeã estadual de futebol feminino;
já que você nunca assistiu um jogo meu.
Os textos que escrevi e, com eles, toquei centenas de corações;
já que você nunca me viu declamar uma só poesia.
O livro de receitas que eu guardo na segunda gaveta do meu armário;
foi com ele que eu fiz a minha primeira torta de frango.
E o CD com o vídeo da primeira vez que eu saltei de paraquedas.
Eu morro de medo de altura.
Mas eu precisava provar pra mim mesma;
que eu era corajosa.
Sendo assim,
eu deixo pra você,
tudo que fez de mim,
o que eu sou hoje.
Deixo pra você um pequeno espelhinho,
que eu guardo sobre a minha escrivaninha;
pra que você olhe e nunca se esqueça,
que a sua ausência,
fez de mim mais seca.
Que a sua ausência,
fez de mim mais forte e corajosa.
A sua ausência,
me obrigou a me defender sozinha,
de homens covardes igual a você.
Mas, sobretudo,
a sua ausência,
me fez ver,
que a culpa nunca foi minha.
Pelo seu lugar sempre vago na plateia.
Eu até tentei sentir sua falta.
Mas minha mãe foi tão incrível,
que ocupou o seu e ocupou o dela.
Então calma.
Não vai embora ainda.
Eu quero te contar uma história.
Uma criança de 7 anos,
agarrada na irmã mais velha de 8,
rezando pra água não subir
mais que a privada.
Subiu.
Duas crianças encurraladas,
isso não foi brincadeira.
E quem sabe, não leve a minha cama;
já que a chuva, já arrancou as telhas.
Você não tava lá, ô Zé,
pra ver sua filha de 7 anos,
tendo que virar mulher.
E eu nem queria
que esse episódio tivesse sido evitado.
Mas que “da hora”,
se tivesse todo mundo junto,
passando pelos perrengues da vida,
lado a lado.
Dê a César o que é de César.
Dê a Deus o que é de Deus.
Seja justo pelo menos uma vez,
e fique em casa.
O Dia dos Pais não é o seu.
E que fique claro,
que isso aqui
não é um discurso de ódio.
Tá mais pra um discurso de dó.
É que eu sinto muito,
por todos os pais
que trocaram seus filhos,
por mulheres, baladas e pó.
Não toquem em nada.
Deixem tudo pra ele.
Pra que ele saiba,
e nunca se esqueça,
que aqui jaz um pedaço dele,
que, dele,
nunca teve nada.

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